Os “Gatos” e os “Deita Gatos” • The “Cats” and the “Cats Applicator”

Gatear (ou gatar) é uma prática antiga de fixação dos fragmentos que constituem uma peça de cerâmica, com o auxílio de agrafos metálicos (“Gatos”). (in “Normas de Inventário: Cerâmica, Artes Plásticas e Artes Decorativas”, Instituto dos Museus e da Conservação, 2007).

“Gatear” (applying cats) is an old practice of fixing the fragments that make up a ceramic piece, with the aid of metallic staples (“cats”). (in “Inventory Rules: Ceramics, Plastic Arts and Decorative Arts”, Institute of Museums and Conservation, 2007).

Faiança “gatada” Earthenware with “cats”

Este tipo de trabalho era normalmente feito pelos amoladores galegos que andavam de terra em terra. A generalidade dos amoladores, eram oriundos de Nogueira de Ramuín, pequena localidade galega, da província de Ourense, próxima do Rio Minho. Dali partiram para o mundo muitos amoladores (afiadores na língua galega) que se espalharam pela Europa e por outros pontos do mundo.

This kind of work was normally done by Galician sharpeners who walked from land to land. Most of the sharpeners were from Nogueira de Ramuín, a small Galician town in the province of Ourense, close to the Rio Minho. From there, many sharpeners spread throughout Europe and other corners of the world.

Amolador Sharpener

Numa época em que ninguém deitava nada fora, prato, terrina, alguidar, tacho de barro ou travessa que se partisse ou estivesse rachado era reparado pelo amolador e ganhava mais vinte, 30, 40 ou 100 anos de vida e às vezes mais, pois muitos deles chegaram hoje às nossas mãos. Aos amoladores, também lhes chamavam de “deita gatos” ou “concerta louça”.

At a time when no one threw anything away, a cracked or a broken plate, platter, bowl, clay pot or a tureen, was repaired by the sharpener and gained twenty, 30, 40 or 100 years and sometimes more, as many of them reached our hands today. The sharpeners were also called “cat applicator” or “crockery fixer”.

Alguidar gateado Big bowl with “cats”

Eles faziam-se anunciar, antes de apregoar, tocando uma flauta de pan, como apito, chamada em espanhol de “chiflo”, a qual soprava fazendo soar suas tonalidades consecutivas, de grave a aguda e vice versa, também era chamada de gaita de porqueiro (porque ele também poderia ser capador de porcos). Em algumas regiões de Portugal, usavam um tilintar de ferrinhos. A esses sons característicos o povo tinha a superstição de que eles faziam adivinhar que ia chover ou fazer mau tempo.

They announced themselves, before proclaiming, playing a panpipe as a whistle, called in Spanish as “chiflo”, which blew making its consecutive tones sound, from low to high and vice versa, it was also called the pigpipe harmonica (because he could also be a pig castrator). In some regions of Portugal, they used the tinkling of “ferrinhos” (iron triangle). To these characteristic sounds the people had the superstition that they called rain and bad weather.

Flauta de pan Panpipe

O amolador deslocava-se a pé, acompanhado de uma roda montada numa estrutura de madeira. Essa roda, quando colocada no descanso, era accionada com um pedal e transmitia o movimento à pedra de amolar, usada para amolar objetos cortantes. Acoplada a essa roda tinha uma caixa de ferramentas com o necessário e suficiente para as reparações rápidas.

The sharpener moved by foot, with a wheel mounted on a wooden structure. This wheel, when placed on the rest, was operated with a pedal and transmitted the movement to the whetstone, used to sharpen sharp objects. Attached to this wheel was a toolbox with the necessary and enough for quick repairs.

Amolador a aplicar gatos Sharpener applying “cats”

Terminado o atendimento dos clientes bastava inclinar a roda, tirando-a do descanso e encostando-a ao solo, ficando assim pronta para ser movida, ou era levada às costas. O serviço era feito na hora, em pouco tempo, e, uma vez concluída a tarefa, lá iam eles para outros lugares em busca de novos trabalhos e clientes.

Customer served, just tilt the wheel, taking it off the rest and leaning it on the ground, ready to be moved, or carried on his back. The job was done on time, in a short time, and, once the work completed, they went to other places in search of new repairs and clients.

Amolador, junto ao Palácio do Marques de Alegrete – Rua da Mouraria – Lisboa
Sharpener, near Marques de Alegrete Palace – Rua da Mouraria – Lisbon

Esses reparadores ambulantes, autênticos homens dos sete ofícios, eram reparadores de guarda-chuvas, castradores de porcos, amoladores de tesouras, navalhas da barba e facas, mas também, nos tachos e panelas de alumínio, punham “pingos” nos buracos (pequenos rebites martelados para preencher os buracos) e até, os mais habilidosos, aplicavam novos fundos nas panelas gastas pelo uso.

These walking repairmen, authentic Jack of all trades, were umbrellas repairers, pig castrators, scissor sharpeners, razors of beard and knives, but also, in the aluminum pots and pans, they put “drips” in the holes (small rivets hammered to fill the holes) and even, the most skilled, could apply new bottoms to the pans worn by use.

A tradinha, ferramenta para abrir os buracos
The gimet, tool to open the holes

O processo de gatear a louça, começava por unir os cacos ou os diversos bocados da peça partida e, por cada “gato” (um pedaço de arame terminado por duas pequenas garras) a colocar, marcavam os dois pontos de ancoragem do “gato”, o vidrado era picado e de seguida faziam os respectivos furos oblíquos, com a ajuda de uma perfuradora manual, como a tradinha, a pua de arco ou outro instrumento primitivo de furar.

To bind the broken pieces, they would start by joining the shards or the several pieces of the broken ceramic piece and, for each “cat” (a piece of wire finished by two small claws) to be placed, they marked the two anchoring points of the “cat”, the glaze was chopped and then the oblique holes were made, with the help of a hand drill, such as the gimlet, archimedes pump drill or another primitive drilling tool.

Furador manual tipo bomba
Pump drill

Alguns “deita gatos” usavam o furador tipo bomba, inventado há uns 5 mil anos, com registos de uso no Egipto Antigo.

Com um eixo vertical de aprox. 30cm e contrapeso de madeira (para manter a inércia de rotação), uma haste horizontal de aprox. 24cm, com um cordel que saia das suas extremidades e unia no topo do eixo vertical, destinava-se a realizar furos de um ou dois milímetros de diâmetro.

O “concerta louça”, ao enrolar o cordel no eixo em sentido anti-horário e forçar a haste horizontal para baixo, fazia ocorrer um forte movimento de rotação no sentido horário, ganhando inércia suficiente para continuar a girar e enrolar o cordel novamente, permitindo accionar novamente a haste horizontal indefinidamente. Esse movimento de rotação horário e anti-horário fazia a ponta de aço afiado, que era molhado em água, desgastar o material, produzindo o furo desejado.

Some “cats applicators” used the pump drill, invented some of them, 5,000 years ago, with records of use in Ancient Egypt.

With a vertical axis of approx. 30cm and wooden counterweight (to maintain rotation inertia), a horizontal rod of approx. 24cm, with a twine that came out of its ends and joined at the top of the vertical axis, was intended to make holes of one or two millimeters of diameter.

The “crockery fix”, when winding the twine in the counter clockwise direction and forcing the horizontal rod downwards, causing a strong clockwise rotation movement, gaining enough inertia to continue to rotate and wind the string again, allowing to operate the horizontal rod again indefinitely. This clockwise and counter clockwise movement made the sharp steel tip, which was cooled in water, wear out the material, producing the intended hole.

Buracos feitos e agrafos prontos
Holes made and staples ready

Juntos os cacos, era a vez de, com a arte que a experiência dá, introduzir as garras dos “gatos” e fixá-los em forma arqueada, de agrafo, de modo a ficarem bem apertados. Assim, conseguiam uma junção perfeita das partes, que impedia que os líquidos vertessem, usando uma cola feita de clara do ovo, para impermeabilizar a peça, que era altamente resistente ao vapor e humidades. Na parte de trás da peça, rematavam muito bem os buracos visíveis com cimento branco.

Once the shards were binded, it was time, with the art that experience gives, to introduce the claws of the “cats” and fix them in an arched shape, with a staple, very tight. Thus, they achieved a perfect joining of the parts, which prevented the liquids from pouring, using a glue made of egg white, to waterproof the piece, that became highly resistant to steam and moisture. At the back of the piece, the visible holes were very well finished with white cement.

Prato pronto para nova utilização, com os “gatos” aplicados
Plate ready for a new use, with the “cats” applied

Além dos gatos, alguns “concerta louça”, também punham asas metálicas nas canecas, canecos, jarros, bilhas, canjirões, picheiras e enfusas, que perdiam as asas cerâmicas originais, no seu uso diário… Para aplicar as novas “asas”, havia quem usasse a mesma técnica dos gatos, mas, os que gostavam de fazer um serviço mais perfeito e robusto (pois a asa teria de aguentar o peso da peça mais o do líquido que era colocado no seu interior), aplicavam dois aros de metal à volta da peça e era nesses aros que a “asa” metálica era aplicada (soldada a estanho). Uma outra técnica era a fixação da nova asa directamente, com estanho colocado em ambos os lados dos buracos na parede da peça, conforme foto abaixo. Assim, a caneca ou bilha, ganhava uma prótese que a tornava novamente funcional no seu uso doméstico ou comercial (estabelecimentos onde serviam vinho, por exemplo).

In addition to the cats, some “crockery fix” also put metallic handles on mugs, jugs and pitchers, that lost their original ceramic handle, in their daily use… To apply the new handle, some of them used the same technique as the “cats”, but those who liked to do a finest, perfect and strong service (since the handle would have to support the weight of the piece plus the liquid inside), applied two metal hoops around the piece and it was in these rings that the metallic handle was applied (tin welded). Another technique was to fix the new handle directly, with tin placed on both sides of the holes in the mug wall, as shown in the photo below. Thus, the mug or the jug got a prosthesis that made it functional again in its domestic or commercial use (places where it was served wine, for example).

Caneca com asa metálica aplicada Mug with applied metal handle

Pregões dos amoladores • Sharpeners proclamations

Região de Aveiro (1950): “Há por aí loiça e guarda-sois para compor? Alguidares, loiça fiiiiina”

Em Lisboa: “Deita gatos em bacias e alguidares, amola tisoiras e navalhas, conserta chapéus de sol…”

Em todo o lado: “Afio facas, tesouras, Na minha pedra de amolar, Venham minhas senhoras, Vida dura… de ganhar!”

Em todo o lado: “Amolador á porta…. Amola facas, tesouras e canivetes… Arranja chapés de chuva…”

Aveiro Region (1950): “Are there any potery and umbrellas to fix? Bowls, fiiiiine crockery ”

In Lisbon: “Apply cats on basins and bowls, Sharpen scissors and razors, fix parasols… “

All over the places: “I sharpen knives, scissors, On my whetstone, Come my ladies, Hard life… to win!”

Everywhere: “Sharpener at the door… Sharpen knives, scissors and pocket knives… Fix umbrellas… “

A arte de Stuart e os versos de Pessoa • Stuart’s art and Pessoa’s verses

Postal editado pelos CTT, com uma ilustração de Stuart Carvalhais (1948), alusiva ao ofício de Amolador, ainda era um dos mais típicos apontamentos das ruas lisboetas e de outras cidades de Portugal.

Postcard issued by the Post Office General Administration (CTT), with an illustration by Stuart Carvalhais (1948), allusive to the craft of Sharpener, it was still one of the most typical notes of Lisbon streets and other cities in Portugal.

Fontes do texto e imagens/ Sources of the text and pictures:
https://amontradoslivros.wordpress.com,
https://lisboadeantigamente.blogspot.com,
https://museudosilvio.wordpress.com,
http://velhariasdoluis.blogspot.com,
Carvalho, António Galopim (O deita-gatos),
Wikipédia e Tiago Pereira.

4 comments to Os “Gatos” e os “Deita Gatos” • The “Cats” and the “Cats Applicator”

  1. Flamínio dos Reis diz:

    Obrigado pela partilha. Gostei imenso de recordar. Não conhecia o furador de fio. Mais uma vez obrigado. Um abraço.

  2. admin diz:

    Bom dia Mestre, nós é que agradecemos. Pois o furador de cordel não era muito usado recentemente nos nossos lados. Abraço

  3. Caro Jorge

    Gostei imenso deste seu post, que está muito completo. Já tinha abordado este assunto no meu blog, mas de uma forma bastante mais vaga, pois tenho sempre alguma dificuldade em escrever sobre assuntos mais técnicos. O Jorge como é um artífice entendeu muito melhor a técnica de gatar do que eu e mais ainda, pelo que eu percebi, gateou um dos seus pratos à maneira antiga. Sabe que conhecia bem uma Senhora aqui em Lisboa, a Cristina Pina, que além de restaurar, fazia faianças e azulejos segundo os processos tradicionais e as peças eram de tão boa qualidade, que eu lhes cheguei a dizer “Se partisse as suas peças, conseguisse alguém para as gatear, enterra-las depois duas semanas na terra, a Cristina conseguiria vende-las quase como se fossem autênticas”

    Quanto aos amoladores galegos, ainda há uns seis ou sete anos anos anos, vinha um aqui à minha zona, um bairro popular, na Lisboa antiga. Normalmente logo de manhã, quando eu ia para o emprego e ficava cheio de pena, de estar cheio de pressa e não lhe dar as minhas facas ou tesouras para afiar. Depois com a explosão do turismo, o senhor desapareceu.

    Um grande abraço e parabéns por este post

    Luís Montalvão

  4. admin diz:

    Caro Luís,

    Agradeço as suas palavras, sim, foi depois de ver o seu post que me ficou a pulga atrás da orelha e nas minhas pesquisas (também a familiares) descobri que as técnicas, e a habilidade, não eram exactamente as mesmas para todos e então tentei conciliar a informação sem ser demasiado exaustivo.

    Estamos sempre a aprender. Um forte abraço, Jorge Saraiva

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